Parece que devo muito mais a mim mesmo e a todo mundo do que sempre devi. Como a história da vítima do agiota. Quanto mais pago, mais devo. Sei que minha mãe se preocupa comigo, meu filho, meus colegas de trabalho. Existe um ‘eterno preocupar-se’ que é uma forma mágica/mística de realização do outro. Enquanto estão ‘preocupados’ comigo, a paz retorna [dentro de rasa possibilidade] aos corações e o mundo [parece] se aquietar. Nada se aquieta de verdade. O que aquieta é Lexotan e maconha. Ou Valium na veia com uísque como perguntou dia desses um amigo (de brincadeirinha, é claro).
Discuto nessa sala e nesse escritório de poucos papéis livros interminavelmente sobre o que estou fazendo ou deixando de fazer e sinto-me mais e mais culpado por ‘não fazer’. Mas, Afinal, o que é fazer? Eu juro que não sei mais.
Imagino que fazer seja uma espécie de realização pessoal e coletiva [gerada pelo eu] associada a componentes éticos e estéticos, algo assim como uma espécie de ‘maravilha do mundo’, criação de alguém próximo do genial [talentoso, vá lá], coisas que, absolutamente, não sou.
E o que eu sou? Acho que nada. Acho que mais uma dessas pessoas que caminham pelas ruas e que levam em suas cabeças um universo todo próprio, cheio de ‘certos’ e ‘errados’, de ‘possíveis’ e ‘impossíveis’, de expectativas para o futuro e recalques. Cheios ainda de incompreensões [acho que Deus é o maior gerador de frustrações em todos nós] Deus é o grande culpado. Sem ele não teríamos a culpa, nem a expectativa, nem mesmo a revolta pelo ‘não ter’. Mas esse Deus culpado (muito, muito mais culpado que o homem é invenção desse próprio homem!).
Deus, parece, não é manifesto no deserto. Ele é manifesto no cérebro [ou espírito] do homem que olha o deserto. Raciocínio mais ou menos simples é que Deus existe na justa medida do homem, que sem Ele, ELE não existiria. Mas o que é isso? Um raciocínio simples, barato e ateu? Niilista? Talvez. Talvez porque não sou espelhado por nada, não possuo o referencial de outra possibilidade que não minha própria cabeça [ou o sentimento arraigado de um conjunto de corações e mentes – e o inconsciente coletivo, vá lá!]. Não importa. De qualquer forma, não tenho referenciais outros. Não tenho um outro mundo, uma outra possibilidade de comparar o que penso com uma realidade. Posso, apenas ser contestado por outra pessoa, outro cérebro [igual ao meu, independente de mais inteligente ou menos, mais culto ou menos], mas sempre a velha massa cinzenta igual à minha tratando de um mundo que é o mesmo que eu percebo, o mesmo que eu vejo. Então é a visão de um igual, também ela baseada em um ‘nada’ comparativo.
E, caminhando nesse deserto único, trabalhamos todos com uma possibilidade pífia. É a culpa dos meus pais, do meu governo, das grandes potências.
Culpa de Deus. O meu grande problema não é acreditar ou não em Deus. Nem se os outros o fazem. Muito menos a arquitetura das suas religiões. O problema é a impossibilidade da materialização do universo pleno. Olho apenas para as estrelas e posso acha-las belas, misteriosas ou um ‘grande nada’. Posso, inclusive, não ver as estrelas. De qualquer forma elas estão lá. Posso ainda imaginar que existam outras formas de vida, pensar que seria loucura não supor vida num universo ‘infinito’. Continuo ‘eu’ raciocinando e trocando essas idéias com ‘outros’ que, na verdade, não passam de ‘eus’ outros, ‘eus’ que nada têm além de mim, salvo um pouco mais ou menos de crença baseada ainda assim, em sentimentos gerados por órgãos fisicamente iguais aos meus.
Resta a dura opção: crer ou deixar de crer. Claro que o lógico é não acreditar.
Mas não acreditar contém todas as deficiências cognitivas e lógicas do ‘acreditar’. Nenhuma diferença senão o contrário. Contrário esse também em oposição a si mesmo, à possibilidade de todos e não relacionado ao conhecimento maior, de possibilidades outras, conhecidas que permitam a comparação. Nada. Não tenho comparações. Tenho a opção limitada do sim e do não, posições antagônicas que partem de um mesmo centro nervoso. E, partindo de origem igual, deixam de ser antagônicas, mas ‘brincadeiras’, ‘exercícios intelectuais’ de um mesmo pensamento que é o pensamento humano.
Estou, então, diante do paradoxo final. Estou no fim do tempo, onde a terra, plana, termina, deixando parte de seus oceanos transbordarem para o nada. O mundo é vasto, tão vasto quanto eu e meu universo e meu filho e meu Deus. E finito.
Dizem-me então que a terra não é plana como se acreditava há muito tempo, que é redonda, que o universo muito possivelmente é infinito e que a ciência caminha à passos largos já aumentando a média de vida e sua qualidade. Se antes se vivia 40 anos, hoje se vive setenta. E com boa qualidade. Não tenho como não acreditar, pois as estatísticas e a história estão aí mesmo pra mostrar que é tudo verdade. E se é verdade, discutir com o quê? O mundo me reafirma a cada segundo que eu posso acreditar em Deus ou não, poso escolher minha ideologia e posso programar minha aposentadoria. O que mais uma pessoa pode desejar? Nada. Sem dúvida nada.
Quando ultrapassamos esse limite, essa fronteira, nossos ‘anti-vírus’, nossos guardiões sociais entram naturalmente em alerta, da mesma maneira que anti-corpos em nosso organismo. ‘Alguma coisa está errada’ – alertam. E, em nome da qualidade de vida e do ‘bem estar geral da nação [globalizada], determinam um tipo de alteração na qual nos enquadramos e somos ingressados num ‘programa de reabilitação’ salvador que inclui, consultórios psicanalíticos, igrejas, hospitais, penitenciárias ou o meio-fio [disfunção do Estado].
Poque estamos tratando de um ‘universo’ de possíveis e, de uma forma ou de outra, havemos de nos enquadrar nessa ou naquela categoria, neste ou naquele grupo [ou tribo].
E, no meio da conversa, ou do mais profundo estudo acadêmico, esquecemos novamente [e sempre!] da possibilidade da comparação, do exercício de nos ver em relação a uma outra possibilidade, um outro mundo, um outro de Deus (se for Ele ainda necessário]. Calma! Não vai aí nenhuma blasfêmia, mas a forma abstrata do Deus permite a sua ‘não existência’ ainda ‘existindo’. Numa outra esfera [para nós impossível], é imaginável ser lógico não acreditar em Deus, ou ‘nesse’ Deus, já que o Deus está presente pela própria possibilidade da comparação, da fissura de pensamentos e, principalmente de existências, sem aí considerar-se nenhuma anormalidade.]
Exemplo disso seria esse mundo metafísico, ou a espiritualidade plena onde outros mundos e outras vidas e outras entidades e muitos ‘outros’ coabitam pela graça de Deus. Isso explica tudo, acalma o meu ser e eleva meu espírito. O senão, entretanto, persiste: ainda que eu creia nessa possibilidade [não uma crença amparada na crença pura e simples, mas em ‘sinais’ e ‘provas’ e convicção absoluta]. A crise que habita o ser crente, o Buda é que todo esse mundo espiritual, bom e infinito [junto com o Mal e tudo o mais] estão ainda dentro de um lado, de uma possibilidade e não dentro de um todo que seja visível a outros, discutível [não do ponto de visto da ‘prova científica’, como podem estar pensando apressadamente], mas, ao contrário, da ‘não prova’.
O que nos falta não é a comprovação do meu Anjo Protetor porque ele não carece de provas, não é uma experiência da Física e sim um Anjo. O que nos falta é perceber outro Anjo [não o do Mal], mas outro anjo seja lá com que denominação for.
Eu entenderia que, numa possibilidade diversa, um radiador velho fosse um Anjo, que a ele se devessem sacrifícios rituais e que não houvesse a possibilidade da dúvida (visto que em outra possibilidade, a questão da dúvida pode sequer existir). Mas não. Nascemos e morremos (se é que isso realmente ocorre – já que não há comparação com um ‘não nascer e morrer’) já prisioneiros [se existir realmente o conceito de ‘prisão’] de um Absoluto que de absoluto não tem nada. Nascemos e morremos e invocamos espíritos e Anjos e Deus sem permitir a estes que se manifestem de forma diversa [tal como, em tese, possuem], diante da falha universal da impossibilidade de diálogo outro, de comparação de conhecimento maior. Aliás, sorrio ao escrever ‘conhecimento maior’ já que não sei o que é o meu conhecimento ou se essa palavra traduz o que penso. Ou se penso.
Amém.
